segunda-feira, 14 de abril de 2014

A colaboração de um (bom) livro na educação

No último sábado meu filho não queria ir dormir. Eu já tinha seguido a rotina do sono dele, que normalmente ele segue direitinho e vai para a cama sem reclamar, mas nesse dia não tinha jeito. O horário dele dormir já tinha passado e muito, ele estava morrendo de sono e o jeito que encontrei foi pegá-lo no colo e levar para a cama. Mas ele não queria ficar na cama, chorava sem parar. Ofereci contar história, cantar, mas ele não queria nada, só chorava. Até que eu perguntei para ele se ele lembrava do Chico...

Não dá para continuar a história sem apresentar o Chico para vocês. Chico é o personagem principal do livro "Chico - o valente", da Jaqueline Miotto Zolet.


O Chico é um menino que quer ser melhor a cada dia. Mas um dia ele chega em casa muito cansado e um pensamento ditador invade sua casa mental! Esse pensamento faz que ele peça tudo gritando e chorando. Seu pai vai com ele para o quarto para ajudá-lo a se acalmar e lá ele trava uma luta contra esse pensamento que está acabando com o ambiente mental de sua casa. Enfim ele vence essa luta e o livro acaba com um abraço na mãe e um delicioso lanche em família. Bem, esse é só um resumão do livro, tem muito mais coisa nessas poucas páginas.

A princípio esse livro nem seria para a idade do meu filho, mas esse livro faz parte da coleção que comprei para ele antes dele nascer. Ele houve o que estou lendo, mas em algumas páginas ele quer virar antes que eu termine de ler. Diversas vezes eu li essa história resumindo-a para que ele pegasse a essência do livro. Mas o livro está lá, sempre ao alcance dele e ultimamente está entre os seus preferidos. Ele se identifica com o Chico, muitas vezes fala que o personagem é ele. Fica impressionado na página que o Chico está gritando, sempre me dá um abraço quando chega na página que o Chico abraça a mãe e adora ficar vendo tudo que tem na mesa do lanche do final do livro.

Agora, voltando à história, eu perguntei se ele lembrava do Chico. Eu fiz essa pergunta e ele parou de chorar imediatamente! Não, eu não estou a exagerando, eu fiz a pergunta e ele parou de chorar. Ele bateu no peito, como quem diz que o Chico é ele. Perguntei se ele era valente e que pensamentos ele queria deixar entrar na casa mental. Depois disso ele deitou e dormiu. Eu realmente não esperava que seria tão simples, não sabia o quanto meu filho estava se identificando com aquele personagem, mas sou imensamente grata a Jaqueline, a Marlowa (a ilustradora do livro) e a todos me de maneira direta ou indireta colaboraram para que eu tenha essa livro em casa.

Lógico que essa atitude do meu filho não foi algo isolado, um passe de mágica. Diversos livros dele e nossas conversas o orientam para que ele veja a si mesmo, identifique seus pensamentos. Isso foi resultado da educação que eu tento dar para ele, sempre com muito afeto e respeito. Mas esse livro colaborou para que sua mente infantil encontrasse uma solução para aquilo que ele estava vivendo, eu tive apenas que recordá-lo.

Outra coisa que percebi foi a importância da história dos livros que ele tem. Esse livro mostra algo da realidade da criança, situações pelas quais ela passa. Também estimula que ele seja o protagonista, que enfrente as situações e não fique esperando o "super-herói" ou "príncipe encantado". Ele tem também livros com animais, com poesias, livros de pop-up que ele adora, mas não mais nem menos do que os que mostram a sua realidade de criança.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A história de um tapa


Meu filho levou um tapa...

O primeiro pensamento que pode vir é "normal, isso acontece entre crianças" ou "é fase". Mas não, o tapa não foi de uma criança.

Então foi um "tapinha corretivo" dos pais, né? Poderia dar justificativas do tipo "precisa corrigir mesmo". Ou eu poderia postar como uma confissão, um arrependimento, mas estaria tentando mudar.

Mas o tapa não foi dos pais. Foi um "tapinha corretivo", um reflexo de uma pessoa muito próxima. Mas antes de dar espaço ao pensamento "que absurdo", tente entender a situação...

Foram dias agitados de muito calor e pouco sono. O resultado, como era de se esperar, foi uma criança agitada que começou a morder, bater, beliscar. Num desses beliscões a autora do tapa estava do lado. O tapa foi um reflexo, um instinto. O arrependimento foi imediato, mas o tapa estava dado. Mas o reflexo não foi ao beliscão, foi um reflexo da educação.

Essa pessoa, assim como eu, foi criada com tapas. Não, nunca fomos espancadas, mas bater era uma forma válida de corrigir a criança. Era uma forma válida por ser a única que nossos pais conheciam. Minhas avós criaram meus pais com tapas (e às vezes mais do que isso) e provavelmente as gerações anteriores também utilizaram a violência para conter a energia de uma criança quando os pais estão cansados. Na minha pré-adolescência eu também dei um tapa... Eu bati numa priminha (ela devia ter a idade que meu filho tem hoje) porque ela me bateu. Levei uma bronca, mas demorei muito para entender que a lógica era que a mãe pode bater para corrigir, os outros não. Lógica?! Enfim, aprendi que é assim que o mundo funciona. O processo que realizei para finalmente descobrir que era possível educar sem violência não foi curto e só se completou quando brotou em minha vida o amor de mãe. A pessoa em questão ainda não completou esse processo, embora tenha certeza que quando ela tiver seus filhos vai saber educá-los sem violência. 

É muito duro para mim ver a indignação, a intolerância com mães que ainda batem nos filhos. Penso que se eu tivesse tido filhos mais cedo eu seria uma dessas mães. Sei que há muitos que defendem as palmadas, mas prefiro confiar que eles não são a maioria. Há muitos que se calam, que batem em seus filhos e ainda sentem o coração apertar, que querem educar e não conhecem outra alternativa. Meu marido nunca apanhou e vi que para ele foi muito mais difícil "engolir" a situação relatada. Mas se estou aprendendo a ser compreensiva, tolerante, paciente com meu filho posso aprender a levar isso para a minha vida toda.

Naquele mesmo dia, mais tarde, essa pessoa veio até mim pedir desculpas. Ela disse que não sabia se saberia ser uma mãe "tão boa" quanto eu, se saberia segurar esse reflexo de bater. Penso que sou mãe e como tal não sou melhor ou pior que ninguém. Eu devo ser "tão boa" como pessoa e só o serei se souber passar a outros o bem que recebi, principalmente se os outros forem crianças que poderão se ver livres de tapas de qualquer natureza. Ainda quero viver o dia que todo ser humano será tratado como ser humano, que todos serão vistos como pessoas sujeitas a deslises, influenciadas por pensamentos, mas que em sua essência são boas e querem o bem.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Um lugar feliz

São 2 países...

Num deles há um governante. Ele até não é a simpatia em pessoa, mas conseguiu se eleger por suas ideias. E seu mandato corre bem! Um tempo atrás houve algumas manifestações, o povo reivindicava melhorias. Não demorou muito e essas melhorias vieram. As manifestações seguintes tornaram-se pacíficas. Bem, ele foi muito criticado pela mídia internacional na época das primeiras manifestações e essa imagem prevaleceu em muitos países. Esse país tem uma constituição que defende a liberdade, a igualdade, a dignidade, a democracia e esse governante a respeita acima de tudo. Aliás, pouco tempo atrás foi convocado um referendo sobre uma questão polêmica, era necessário saber o que o povo pensava. Certo, é difícil agradar todo mundo... Às vezes ele é criticado por investir mais num setor do que em outro, assim como às vezes é preciso tomar decisões de acordo com a situação, mesmo que não seja a decisão mais popular. O que se percebe neste governante é amor por seu país, por seu povo.

Em outro país também há um governante. Seu sorriso fácil o ajudou a chegar ao poder. Esse país tem uma longa tradição patriarcal e isso se percebe nesse governo. Esse país está passando por uma delicada crise política. As manifestações são frequentes e é preciso utilizar a força policial para contê-las. Ultimamente tem-se evitado utilizar a violência, mesmo assim a cada manifestação muitos são presos. A justiça nesse país é lenta e essas prisões muitas vezes acabam se prolongando. Parte da população tem medo de se manifestar, mesmo não concordando com o governo. A constituição neste país é fraca, o que muitas vezes colaborar para os mandos e desmandos deste governante. O que se diz é que ele ama o poder e faz tudo para mantê-lo.

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Imagine-se morando em cada um desses países. Em qual deles pensa que seria mais feliz? Acho que são poucos os que, já tendo experimentado a democracia, escolheriam viver num regime autoritário, certo?

Sendo este um blog sobre maternidade, você já percebeu onde quero chegar? Pense no país como uma família, nos governantes como os pais, no povo como os filhos, nas manifestações como "birras", na constituição como os valores nos quais a família se baseia. Volte, leia as imagens novamente. Coloque a si mesmo na imagem do governante, coloque a si mesmo na imagem do povo.

É fácil falar que manifestantes de uma causa que você não concorda devem ir presos ou apanhar. Também é fácil falar que criança birrenta deve ficar de castigo ou apanhar. Mas imagine se a manifestação é pelo direito ao voto, o que a birra é por que a criança está com fome e não sabe como dizer isso. Ainda merecem ir presos, ficar de castigo ou apanhar? É fácil falar mal dos governantes, mas eu aceito rever minha forma de "governar"?