Eu não era contra uma palmada educativa. Eu levei uns tapinhas quando era criança e não fiquei traumatizada. Eu achava que era melhor uma palmadas do que uma criança sem limites. Tudo isso no pretérito, as coisas mudam. Mas normalmente a mudança não é rápida.
Na adolescência eu saí do casulo e comecei a conhecer meus amigos. Comecei a ampliar meus horizontes e conversar com gente diferente. O assunto educação não era raro em nossas conversas, mesmo quando eu era mais nova. Não era raro e eu me interessava muito. Mesmo assim foram poucas as vezes que entramos no assunto "palmadas". Em nossas conversas sempre vi lindos exemplos e experiências, alguns falando do que viviam com seus filhos, alguns falando de exemplos que viram e anelavam aplicar. Mas nunca ouvi alguém falando "daí eu meti um tabefe naquele pirralho para ele tomar jeito" ou algo parecido. Os exemplos trazidos eram sempre positivos, normalmente resultado de muito estudo e muitas tentativas.
Foi nesse ambiente que eu fui amadurecendo. Ainda era relativamente nova e muitas vezes os exemplos que traziam serviram para que eu entendesse melhor o que os pais querem. Quantas vezes percebi amigos mais velhos complementando a educação que meus pais deram! Sei que meus pais me educaram muito bem, mas às vezes ouvir algo de outras bocas permite que a gente entenda melhor.
Mas o pensamento "uma palmadinha não tem problema" continuava em minha mente. Ele já começava a mudar, indo para um cantinho e começando a se esconder. Ele se mostrava como "só vou bater em último caso". O pensamentinho estava ficando acuado, ele não combinava com os outros pensamentos que eu estava cultivando, pensamentos de bem que se uniam para tentar fazer um mundo melhor.
Quando conheci meu marido ele deixou claro que não era a favor das palmadas. Gostei da ideia... Embora eu não fosse contra, eu também não era a favor, só achava que tinha horas que não haveria saída. Quando engravidei vi claramente que não haveria palmadas na minha família. Em mim o pensamento estava perdendo força e realmente não estava disposta a brigar por ele, muito menos colocando em risco a harmonia do meu lar. Quando o Guilherme nasceu vi que esse pensamento começou a agonizar.
O abraço mais gostoso deste mundo!
O pensamento da palmada entra em conflito com o que há de mais forte numa mãe, o amor. O Guilherme é um menino doce e inteligente (como toda criança é, mas estou relatando a minha experiência). Convivendo com essa criança encantadora eu me vi perguntando como alguém pode bater no filho. Comecei a perceber a sua compreensão se desenvolvendo, a vontade de aprender despertando e a confiança que ele tem em mim como sua perceptora. Esse pensamento já era um corpo inerte em minha mente, mas ainda não tinha decretado sua morte.
Certo dia estava lendo alguns comentários em uma página de mães numa rede social. Um delas estava com problemas com a filha, que estava querendo mandar e batendo nos outros (o que parecia ser o "terrible two") e pedia ajuda. Ao ler os comentários me assustei. A maioria recomendava a palmada como a única saída, além de ser eficaz. Mas, calma aí, será que fui só eu que percebi contradição em bater para a criança parar de bater?! E depois, nada tem uma só saída! Vi que naquela situação a palmada é a "solução" rápida, que faz a criança parar com aquele comportamento na hora ou naquele período, por medo de levar nova surra. Mas a criança não compreende onde está o errado daquele comportamento e vai repeti-lo em outra ocasião, quando levará outro tapa e quantos outros forem necessários até que consiga ver o que dispara aquele castigo tão severo. Vi que a palmada é a saída para quem não tem outros recursos, para quem não tem paciência. Só que eu sei que tenho recursos, sei que posso cultivar a paciência, sei que posso ser uma mãe cada vez melhor. E nesse instante enterrei sem dó nem piedade aquele corpo inerte que atravancava minha mente.
Depois desse dia já passei algumas situações difíceis com meu filho. Ele eventualmente tem crises de choro e não tenho a menor ideia do motivo. Um delas foi de madrugada, no meio da semana. Ele berrou por mais de uma hora. Durante a crise eu tive vontade de berrar junto, bater com a cabeça na parede ou qualquer coisa que fizesse aquilo passar. "Coincidentemente" era isso que meu filho queria fazer também, percebi que ele estava sentindo mesmo que eu. Eu não compreendia pois a situação não era comigo, ele não compreendia por que ainda não tem condições de compreender algo assim. E vi no meio do desespero surgir em mim a tolerância, algo que certamente não aconteceria se optasse por um tapa (que com certeza pioraria a situação). Tirar esse pensamento da minha mente está permitindo que eu seja melhor, que eu encontre a forma de despertar em mim as melhores virtudes, que eu faça a alquimia de transformar o mal em bem.

