Meu filho levou um tapa...
O primeiro pensamento que pode vir é "normal, isso acontece entre crianças" ou "é fase". Mas não, o tapa não foi de uma criança.
Então foi um "tapinha corretivo" dos pais, né? Poderia dar justificativas do tipo "precisa corrigir mesmo". Ou eu poderia postar como uma confissão, um arrependimento, mas estaria tentando mudar.
Mas o tapa não foi dos pais. Foi um "tapinha corretivo", um reflexo de uma pessoa muito próxima. Mas antes de dar espaço ao pensamento "que absurdo", tente entender a situação...
Foram dias agitados de muito calor e pouco sono. O resultado, como era de se esperar, foi uma criança agitada que começou a morder, bater, beliscar. Num desses beliscões a autora do tapa estava do lado. O tapa foi um reflexo, um instinto. O arrependimento foi imediato, mas o tapa estava dado. Mas o reflexo não foi ao beliscão, foi um reflexo da educação.
Essa pessoa, assim como eu, foi criada com tapas. Não, nunca fomos espancadas, mas bater era uma forma válida de corrigir a criança. Era uma forma válida por ser a única que nossos pais conheciam. Minhas avós criaram meus pais com tapas (e às vezes mais do que isso) e provavelmente as gerações anteriores também utilizaram a violência para conter a energia de uma criança quando os pais estão cansados. Na minha pré-adolescência eu também dei um tapa... Eu bati numa priminha (ela devia ter a idade que meu filho tem hoje) porque ela me bateu. Levei uma bronca, mas demorei muito para entender que a lógica era que a mãe pode bater para corrigir, os outros não. Lógica?! Enfim, aprendi que é assim que o mundo funciona. O processo que realizei para finalmente descobrir que era possível educar sem violência não foi curto e só se completou quando brotou em minha vida o amor de mãe. A pessoa em questão ainda não completou esse processo, embora tenha certeza que quando ela tiver seus filhos vai saber educá-los sem violência.
É muito duro para mim ver a indignação, a intolerância com mães que ainda batem nos filhos. Penso que se eu tivesse tido filhos mais cedo eu seria uma dessas mães. Sei que há muitos que defendem as palmadas, mas prefiro confiar que eles não são a maioria. Há muitos que se calam, que batem em seus filhos e ainda sentem o coração apertar, que querem educar e não conhecem outra alternativa. Meu marido nunca apanhou e vi que para ele foi muito mais difícil "engolir" a situação relatada. Mas se estou aprendendo a ser compreensiva, tolerante, paciente com meu filho posso aprender a levar isso para a minha vida toda.
Naquele mesmo dia, mais tarde, essa pessoa veio até mim pedir desculpas. Ela disse que não sabia se saberia ser uma mãe "tão boa" quanto eu, se saberia segurar esse reflexo de bater. Penso que sou mãe e como tal não sou melhor ou pior que ninguém. Eu devo ser "tão boa" como pessoa e só o serei se souber passar a outros o bem que recebi, principalmente se os outros forem crianças que poderão se ver livres de tapas de qualquer natureza. Ainda quero viver o dia que todo ser humano será tratado como ser humano, que todos serão vistos como pessoas sujeitas a deslises, influenciadas por pensamentos, mas que em sua essência são boas e querem o bem.